26/06/07

Após Doha, agronegócio vai buscar a Ásia e o bilateralismo

Com perspectivas cada vez menos sólidas de sucesso nas negociações de liberalização comercial da Rodada de Doha, o agronegócio brasileiro deverá partir para as negociações bilaterais para abrir novos mercados. Com o insucesso das negociações com os países desenvolvidos, o Brasil mira agora os emergentes, notadamente na Ásia.

O secretário de Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Célio Porto, já começou a rever a agenda com foco na retomada de acordos bilaterais, que poderão ser ampliados e concluídos. "Países da Ásia, por exemplo, são potenciais compradores de carne brasileira. Se cumprirmos as exigências sanitárias poderemos ganhar mercados internacionais e ampliar para outros países" diz.

Retomar o acordo com a União Européia (UE) e concluir acordos entre o Mercosul com a Comunidade de países do Golfo e Israel estão nos planos do governo em crescer nas exportações do agronegócio brasileiro. "Os programas do governo para o controle sanitário - animal e vegetal - conta com aporte de R$ 270 milhões", destaca.

"É na Ásia que o consumo de combustíveis mais cresce hoje", concorda o novo presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Marcos Jank, com relação aos potenciais mercados para o etanol brasileiro. O foco da entidade nas exportações do biocombustível estão inicialmente nos Estados Unidos, mas o aumento da renda e dos índices de poluição atmosférica nas cidades chinesas e indianas abrem oportunidades para o etanol.

Nesse sentido, Jank responsabiliza não só os Estados Unidos e a União Européia pela crise de Doha, mas também o Brasil e a Índia. Este último, segundo o executivo, apresentou propostas de salvaguardas automáticas para proteger os países em desenvolvimento, o que, na prática, representaria um retrocesso na abertura do comércio internacional. "O Brasil precisa perceber que os países em desenvolvimento são um grande mercado para os produtos do seu agronegócio e que um fechamento comercial dessas economias representaria prejuízo ao País em pouco tempo", constata ele, que até agora presidia o Instituto de Estudos em Comércio e Negociação Internacional (Icone).

Os agentes do agronegócio concordam que o fracasso anunciado na semana passada na reunião de Potsdam, na Alemanha, pelos quatro países negociadores da Rodada de Doha, representa uma perda de oportunidade. Na pauta estão, basicamente, a redução dos subsídios agrícolas dos países desenvolvidos em troca da abertura dos mercados em desenvolvimento.

"A proposta de EUA e UE de reduzir a US$ 17 bilhões os subsídios anuais ficou abaixo das nossas expectativas, mas poderia ser aceita se fosse determinada por produto, e não de maneira global", explica Jank. O objetivo seria impedir que os subsídios sejam administrados livremente para proteger produtos mais sensíveis. A proposta brasileira é de que os subsídios não possam superar 10% do valor total da produção de cada produto.

A UE mostrou-se disposta a negociar tarifas preferenciais para o etanol com o Brasil em um eventual acordo entre Bruxelas e o Mercosul. Mas condiciona isso a uma definição sobre o futuro da Rodada de Doha, segundo a comissária de Agricultura da Europa, Mariann Fischer Boel. Para ela, o colapso da conferência de Potsdam foi causada pelo comportamento de brasileiros e indianos e que um eventual fracasso total deve "congelar" a Doha e por alguns anos. "O Brasil perderá novos acessos a mercados para seus produtores competitivos", afirmou Mariann.

Segundo Jank, o vencimento em julho do fast track, mecanismo pelo qual o Congresso norte-americano dá maior autonomia ao presidente George W. Bush nas negociações impõe um prazo curto. "O fracasso de Doha afetará a credibilidade nas negociações multilaterais, que não são totalmente substituídas pelas bilaterais em questões sistêmicas como os subsídios", diz ele.

Mas mesmo com as negociações paralisadas, o agronegócio deverá ampliar as exportações. De acordo com Antônio Donizeti Beraldo, coordenador de comércio exterior da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a expectativa é de encerrar 2007 com 12% de crescimento, chegando a US$ 55 bilhões, por causa da alta de vendas de carnes, soja, etanol, milho, entre outros.

(Fonte: DCI)

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